Um texto de Wolf Gauer sobre a série de pinturas LOUVEIRAS


Louveiras: Uma reflexão inocente

Do mezanino de seu atelier, e recortada por uma janela pequena, enxerga-se certa parte do urbanismo “Hobbit” do município de Louveira, domicílio de  Hélio Schonmann.
Ruas e ruelas, telhados imperativos, arcos de fachada ambiciosos, postes e coqueiros perdidos: o assunto da fascinante série. No desenvolvimento sequencial dos trabalhos, o cenário cotidiano (muito distante do “locus amoenus”), se converterá em substrato amorfo ou dramático. Sobrevive, todavia, alto e caduco, no horizonte longínquo, o símbolo de progresso de outrora: uma magrela antena. Ela centraliza a mira e liga o pandemônio terrestre a espaço bem diverso, ao pregá-lo à esfera acima do (quase sempre) acentuado horizonte, ao espaço sideral. Este, ainda veremos, será palco de cenários surpreendentes.
O intenso salpicado de tinta, nos vidros e na parede do dito mezanino, sinaliza, desde já, agitado embate na hora de enfrentar a vista descrita: fruto dos (confessos) reflexos reativos do artista à paisagem, que, cada vez mais decididos, acabam, por vezes,  transformando a minúscula amostra do planeta em área tenebrosa e assustadora – ‘mene, mene, tequel parsim’ para aqueles que preferem conotação fatídica.
O “céu”, no entanto, em transformação síncrona, vira palanque de evolução deslumbrante, produzindo um inesperado êxtase de luz, de cores e de configuração formal (imagem 41). Em contraste ou antagonismo, ele transmite intensa sensação de liberdade e audácia. A impressionante abundância de propostas plásticas desafia o conceito fractal das formas naturais. Música visual (não falamos de anjinhos, apenas do céu aqui revelado). Chega a ofuscar por explosiva luminosidade, com entusiasmo contagiante (imagem 1).
A série “Louveiras” vive, assim entendemos, de dualidade e de equilíbrio dinâmico, dialético, entre percepção intelectual  e entrega emocional; céu e  terra; drama e êxtase.

Wolf Gauer
Cineasta e Jornalista